O Logótipo não Ensina
O debate recente em torno da utilização do inglês na designação da Nova SBE expôs algo que vai muito além de uma questão linguística. À superfície, discute-se um despacho do reitor que determina o uso da designação oficial em português nas unidades orgânicas da universidade. Na prática, assistimos a uma disputa simbólica que revela tensões antigas sobre autonomia, poder interno e o modelo de universidade que queremos em Portugal.
Pedro Santa Clara é uma figura incontornável na transformação da Nova SBE. A internacionalização da escola, a captação de docentes estrangeiros, a capacidade de fundraising privado, a construção do campus de Carcavelos e o posicionamento estratégico da marca são conquistas reais e relevantes. Portugal precisa de mais exemplos desses porque, para além da reputação internacional que levaram a Nova SBE aos Tops 5 nos mestrados de Finanças e Gestão, formaram profissionais de excelência e quem dão cartas em Portugal e no estrangeiro. Precisamente por isso, surpreende que a resposta a um despacho administrativo tenha sido enquadrada como um “ato hostil” com “custos irreparáveis para a instituição e para o país”. A força de uma instituição académica não pode depender do idioma formal da sua designação interna.
A Nova SBE tornou-se referência não porque decidiu comunicar em inglês, mas porque conseguiu alterar profundamente o seu modelo. Internacionalizou o corpo docente, aumentou a presença de alunos estrangeiros, alinhou incentivos, investiu em infraestruturas modernas e posicionou-se num mercado global altamente competitivo. O inglês foi instrumento, não causa. As grandes escolas europeias competem por talento, produção científica, empregabilidade e redes globais, não por semântica institucional.
Escrevo isto também de um lugar particular: fui aluno da Católica Lisbon SBE, concorrente direta da Nova SBE naquilo que mais importa: os alunos. A competição entre ambas nunca se decidiu no idioma do nome, mas sim na qualidade do corpo docente, na ambição estratégica, na ligação ao mercado, na capacidade de gerar reputação internacional, e também na qualidade das suas infraestruturas. Quando uma instituição ganha alunos ou professores à outra, não é porque uma tem um nome mais “global”, mas porque oferece melhores condições académicas e profissionais para aqueles que a escolhem. A concorrência saudável entre estas escolas elevou o padrão do ensino de Economia e Gestão em Portugal, e é isso que deve ser protegido por ambas as Universidades.
Se há uma discussão relevante aqui, não é sobre português versus inglês, é sobre até que ponto uma escola pública pode ou deve operar como uma entidade quase autónoma dentro de uma universidade maior. É legítimo debater a margem de autonomia estratégica das unidades orgânicas, e é legítimo discutir o equilíbrio entre identidade institucional e posicionamento internacional. O que parece excessivo é transformar uma clarificação administrativa, que não impede o uso internacional da marca, numa narrativa de ameaça existencial.
Também é razoável questionar as prioridades deste reitor. Num contexto em que o ensino superior enfrenta desafios estruturais, entre financiamento, captação de talento, competitividade científica, a energia despendida numa batalha simbólica parece desproporcionada. Se a Nova SBE conseguiu posicionar-se como referência internacional, talvez a questão relevante seja como replicar boas práticas noutras faculdades da mesma e de outras Universidades. A ambição estratégica não deve ser nivelar identidades, mas elevar o seu desempenho.
No fundo, esta controvérsia revela algo típico das instituições maduras: quando o sucesso de uma unidade cresce de forma muito visível, as tensões de governance tornam-se inevitáveis. Mas a maturidade institucional mede-se pela capacidade de distinguir o essencial do acessório. O essencial é a qualidade académica, a investigação produzida, os alunos formados, o impacto no país, enquanto o acessório é o idioma do logótipo.
Portugal não deixará de competir no ensino superior global por incluir o português na designação oficial de uma escola pública. Competirá menos, sim, se perder tempo nessa discussão.
Se o nome é em inglês, português ou crioulo, isso deveria ser um problema de fim de semana, como quem corta a relva ou lava o carro. O que verdadeiramente importa é o que acontece dentro das salas de aula, nos centros de investigação e nas oportunidades que se criam para os alunos. O resto é ruído e, no limite, uma guerra de vaidades que pouco acrescenta ao futuro do ensino superior no país.


