just sit here and play
Quero jogar, quero estar na mesa, quero ser um pião, um cavalo, uma torre. Andar a vertical saltar casas na diagonal, quero andar para a frente, sempre para a frente.
Quero me repetir imensas vezes como quando escrevo, quero não me esquecer das minhas jogadas e jogar sempre com elas pensadas. Quero jogar sem cronómetro, mas sempre com um escondido para saber que o tempo passa, que tudo conta, mas que tudo passa, porque em Nova Iorque sente-se o tempo a passar. Não é como em Lisboa, onde ele se arrasta, aqui passa por ti. Quero ganhar e mudar de mesa, quero perder e mudar também, mas mudar imensas vezes mesmo quando o resultado for o esperado ou outro qualquer.
Mudaria de mesa sempre que me obrigassem ou sempre que me apetecesse. Deixaria jogos a meio como já deixei, ou jogaria jogos infinitos por não conseguir deixar de jogar. Sentar-me-ia em todas as mesas mesmo que fosse só para ver, sem compromisso, mas pelo menos saberia como era jogar como e com os melhores. Iria sentir que fazia parte, que jogava também, mesmo não mexendo uma única peça.
Faria sempre os mesmos movimentos, mesmo os errados, para ver se desta vez passavam entre o pingo das peças, e mudaria na quinta ou sexta vez, para que não me apanhassem novamente. À primeira todos erram, mas à sexta só erra quem quer.
Ao sentar-me numa mesa daquelas de jardim, não gostava de saber quem é aquela pessoa que me convidou para jogar: “Do you wanna play a chess game?”. Isto é um convite muito pouco usual, as pessoas não convidam desconhecidos para jogar xadrez. A menos que se sintam sozinhas. E é quando nos sentimos sozinhos que estamos disponíveis para fazer os pedidos mais bizarros do mundo, porque a partir do fundo do poço onde nos encontramos não conseguimos descer mais. A partir do fundo do poço tudo é positivo, tudo passa, seja o tempo ou outra coisa qualquer. Naqueles bancos de jardim há imensa solidão, mas há uma solidão acompanhada. Uma solidão abraçada por desconhecidos, que se sentam e aceitam o desafio de jogar um jogo sem qualquer significado. Ninguém vai ganhar nada, mas se calhar até se ganha qualquer coisa.
Penso muito sobre mim naquilo que vejo por aqui. Recuso um jogo de xadrez com educação e por princípio, mas isso não me deixa ficar. Ficou aqui atrás aquela frase “Do you wanna play a chess game? It’s easy, bro, you just need to sit here and play” como se tivesse mais algum significado do que este. Não tem, mas há algo na ideia de oportunidades desaproveitadas que me incomoda. Extrapolo logo isto para a minha vida, e fica-me sempre a ideia das mesas que não jogo, do que perdi por falta de comparência, do que não me deixarão jogar.
Porque muitas vezes não é falta de capacidade, é falta de presença. Não é não saber jogar, é não me sentar. É dizer que não antes de perceber o que está em causa. É achar que há sempre outra mesa melhor, outro momento mais certo, outro dia em que estarei mais preparado. E entretanto o jogo começa na mesma, com ou sem mim. As peças mexem-se, as jogadas acontecem, alguém ganha, alguém perde, e eu fico ali ao lado, a ver, convencido de que ainda vou a tempo de me sentar.
Há qualquer coisa de confortável em não jogar. Não há erro, não há exposição, não há derrota. Mas também não há nada. Fico protegido, mas fico de fora. E talvez seja isso que mais me custa.
E depois há o outro lado, que é ainda mais estranho: a ideia de que um dia já não me vão convidar. Que as mesas continuam, mas já não há espaço, ou já não há convite, ou já não há vontade. E aí deixa de ser uma escolha. Deixa de ser “não me sentei” e passa a ser “já não me posso sentar”.
Acima de tudo, nunca deixa de ser um “just sit here and play.”
Então? Long time no see, não é verdade?
Fiz um mês sabático, fui aos States, e continuei com dúvidas.
Essas nunca mudam.
Até já!


